Desta vez, quem falou não foi um congressista qualquer, nem o advogado de alguma empresa de IA.
Foi Michael Kratsios. Conselheiro científico do presidente Trump, diretor do Escritório de Política de Ciência e Tecnologia da Casa Branca.
Ele disse publicamente em 23 de abril:
"Extrair e copiar sistematicamente as inovações da indústria americana – isso não tem nada de inovador."
A mensagem é clara – o governo dos EUA registra oficialmente: a China está copiando a IA americana de forma industrializada.
Como exatamente estão copiando
Desta vez, não são alegações vagas como "roubo de dados". Kratsios descreveu um sistema completo:
Primeiro passo: Criar uma matriz de contas proxy.
Dezenas de milhares de contas proxy, IPs distribuídos, consultas em larga escala aos modelos da OpenAI, Anthropic e Google, contornando as restrições de acesso.
Segundo passo: Destilação de modelos.
As respostas obtidas – incluindo a cadeia de pensamento (chain of thought) e as etapas internas de raciocínio – são usadas para treinar seus próprios modelos menores.
A lógica é: Você não precisa repetir cem anos de experimentos; basta perguntar as respostas de quem já fez os experimentos e depois aprender com o raciocínio deles. O custo de treinamento é apenas uma fração do original.
Terceiro passo: Violar as barreiras de segurança.
Alguns casos envolvem também a violação das restrições de segurança do modelo original para extrair informações que normalmente não poderiam ser obtidas.
A conclusão de Kratsios: Esses modelos destilados, em alguns benchmarks, podem se aproximar do desempenho dos principais modelos americanos, mas com um custo de treinamento que é apenas uma fração do original.
Não é a primeira vez que alguém diz isso, mas desta vez é diferente
Anthropic, OpenAI e Google já relataram ataques semelhantes anteriormente.
No ano passado, uma reportagem amplamente divulgada acusou DeepSeek, Kimi e MiniMax de extrair 16 milhões de conversas do Claude e do ChatGPT para treinamento. As três empresas negaram.
Naquela ocasião, ainda ficou no nível de "reclamação de empresas contra concorrentes".
Desta vez é diferente: É o conselheiro científico do presidente dos EUA, falando da posição do governo. Isso significa:
- O assunto já entrou na avaliação oficial da comunidade de inteligência
- O governo dos EUA se prepara para tratá-lo como uma questão de política, não como uma disputa legal entre empresas privadas
Kratsios acrescentou que a Casa Branca planeja fortalecer o compartilhamento de inteligência com empresas de tecnologia e projetar conjuntamente medidas de contra-medida.
Um ponto sutil
A destilação de modelos em si é uma técnica completamente legal.
Usar as saídas de modelos de código aberto para treinar modelos menores é uma prática comum na academia, e muitas pesquisas de código aberto são feitas com base nisso.
O que Kratsios acusa é a combinação de três coisas: contornar restrições de acesso + escala industrial + violar barreiras de segurança.
Juntas, essas três coisas não são mais "aprendizado técnico", mas sim roubo organizado de propriedade intelectual.
A China não respondeu oficialmente. Esse tipo de acusação nunca recebe uma resposta do tipo "sim, estamos copiando", mas as reações políticas e diplomáticas subsequentes mostrarão a posição.
Como os impactos reais se desenrolarão
No curto prazo, as principais empresas de modelos de IA provavelmente apertarão a verificação de acesso à API – autenticação de identidade mais rigorosa, detecção de tráfego anômalo mais complexa e possíveis restrições de acesso regional.
A Anthropic já investiu em pesquisa sobre Constitutional Classifiers, usando IA para detectar abuso de IA. A OpenAI e a Microsoft assinaram um acordo de cooperação de segurança, compartilhando capacidades de segurança cibernética. Essas medidas estão alinhadas com o que Kratsios chama de "compartilhamento de inteligência com a indústria".
Mas a questão mais fundamental é: Se a própria técnica de destilação pode comprimir um modelo que custou dezenas de bilhões de dólares para treinar em uma versão reproduzível por alguns milhões de dólares, então o fosso tecnológico é inerentemente frágil.
Barreiras, contra-medidas e compartilhamento de inteligência são úteis, mas as regras do jogo já mudaram.
"Isso não tem nada de inovador" – as palavras de Kratsios soam mais como a abertura de uma longa disputa do que como um capítulo final.
Fonte de referência: CocoLoop, Trump science advisor says Chinese actors are copying American AI at massive scale (The Decoder)