Planejamento chinês esfria alta dos robôs após semestre de vendas fracas

A Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma da China (NDRC) deu um alerta ao setor de robótica em sua coletiva de imprensa mensal de agosto. Li Chao, vice-diretor do gabinete de pesquisa de políticas e porta-voz do órgão, disse que a indústria de robótica envolve múltiplas tecnologias de ponta, como inteligência artificial, manufatura avançada e novos materiais. Segundo ele, cada região deve se posicionar de acordo com seus próprios recursos e vantagens industriais, evitando seguir tendências cegamente e a corrida desordenada.

Essa declaração ganha mais peso quando colocada ao lado dos dados do setor deste ano.

Pouco vendido, muito produzido

Segundo o Ministério da Indústria e Tecnologia da Informação (MIIT), a receita das empresas de robótica de porte relevante ultrapassou 300 bilhões de yuans em 2025, com crescimento médio anual superior a 20% nos últimos cinco anos. No primeiro semestre de 2026, a receita foi de 165,5 bilhões de yuans, alta de 24,5% na comparação anual. Outro número, divulgado anteriormente pela NDRC e mais citado, mostra que, a cada 10 robôs humanoides e quadrúpedes inteligentes vendidos no mundo, 8 são fabricados na China.

Mas ao focar especificamente na categoria de robôs humanoides, o cenário perde brilho. No primeiro semestre de 2026, os embarques globais de robôs humanoides somaram cerca de 19,1 mil unidades, das quais a China respondeu por mais de 97%.

Colocados lado a lado, os dois números revelam uma discrepância e tanto. A maior parte dos 165,5 bilhões de yuans em receita vem de categorias já consolidadas, com modelo de negócio comprovado, como braços robóticos industriais, AGVs e robôs colaborativos. A contribuição dos robôs humanoides, calculada grosseiramente a partir das 19,1 mil unidades e usando um preço médio otimista de 200 mil yuans por unidade, chega a cerca de 3,8 bilhões de yuans no semestre — pouco mais de 2% da receita total do setor.

Por trás desses 2% estão mais de 150 empresas de robôs humanoides — número divulgado pela NDRC no fim do ano passado, que também apontou que mais da metade são startups ou empresas vindas de outros setores. Dividindo 19,1 mil unidades entre 150 empresas, a média fica em pouco mais de cem unidades por empresa — e esse já é o cálculo otimista, que atribui todo o volume mundial de embarques aos fabricantes chineses.

A quem se dirige a "corrida desordenada"

O tom da NDRC vem se intensificando. Em novembro do ano passado, a formulação era evitar que "produtos de robôs humanoides altamente repetitivos se acumulem no lançamento, comprimindo o espaço para pesquisa e desenvolvimento", mirando a homogeneização dos produtos. Desta vez, expressões como "conforme as condições locais" e "evitar seguir tendências cegamente" mudam o alvo para os governos locais — a construção de parques industriais, a criação de fundos especiais e a atração de fabricantes de robôs completos se repetiram de forma quase idêntica em diferentes regiões nos últimos dois anos.

O outro lado do aquecimento do setor fica mais visível em feiras e no mercado de capitais. A Conferência Mundial de Robôs 2026 reuniu mais de 300 empresas expositoras, 69% a mais que no ano anterior, com mais de 3 mil produtos previstos, incluindo mais de 300 lançamentos mundiais. Na bolsa de Hong Kong e no mercado STAR de Xangai, a Unitree Robotics já teve sua listagem aprovada e planeja captar 4,2 bilhões de yuans, correndo para se tornar a primeira ação de IA incorporada do mercado; outras concorrentes estão na fila.

Os avanços tecnológicos são reais. Xu Xiaolan, presidente da Sociedade Chinesa de Eletrônica, afirmou que as mãos robóticas nacionais já alcançam precisão na casa de 0,1 milímetro e vida útil de mais de 1 milhão de ciclos por unidade. Desde que a IA incorporada entrou pela primeira vez no relatório de trabalho do governo em março de 2025, a densidade de apoio político ao setor também é inédita.

O problema é que, entre a melhoria de precisão dos componentes e a venda efetiva de robôs completos, ainda existem três obstáculos: cenários de uso, custo e confiabilidade. Levantamentos anteriores mostraram que a China fabrica cerca de 90% dos robôs humanoides do mundo, mas apenas 23% dos compradores se disseram satisfeitos — a expansão da capacidade produtiva está à frente da validação da demanda.

Para quem é o esfriamento

Desta vez, a NDRC não editou nenhuma medida restritiva, apenas uma declaração de seu porta-voz, com poder vinculante limitado. Mas, para os departamentos locais de atração de investimentos, esse tipo de linguagem costuma funcionar como sinalizador: as lições da rodada anterior de excesso de capacidade em energia solar e baterias de lítio ainda estão frescas. Um alerta antecipado do governo central geralmente significa que a aprovação de projetos, os fundos especiais e o planejamento de parques industriais tendem a ficar mais rígidos daqui para frente.

Para as empresas, o caminho da pressão é mais direto. Assim que o ambiente de financiamento deixa de valorizar "contar uma boa história" e passa a exigir "mostrar pedidos", o denominador de 19,1 mil unidades vira uma pergunta que cada empresa precisa responder. Das 150 empresas, a maioria não deve conseguir uma fatia relevante do mercado.

O efeito de concentração no topo do setor deve ficar mais evidente no próximo ano. Quem conseguir reduzir o custo por unidade e viabilizar um cenário de uso concreto vai ficar com a maior parte dos embarques nesse segmento; as demais empresas provavelmente serão adquiridas ou recuarão silenciosamente para a cadeia de fornecimento de componentes.

Fontes: coletiva de imprensa da Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma, dados do setor do Ministério da Indústria e Tecnologia da Informação, agência Xinhua, CocoLoop, Sociedade Chinesa de Eletrônica; receita e volume de embarques verificados conforme dados oficiais divulgados, preço médio por unidade e tamanho do mercado são estimativas aproximadas, não dados oficiais.