Nvidia e Amazon anunciaram em 26 de agosto uma ampliação da parceria: a AWS vai comprar mais 2 milhões de GPUs Nvidia. O acordo anterior, assinado pelas duas partes há cinco meses, era de pouco mais de 1 milhão de chips — o novo volume praticamente dobra a escala original. A justificativa apresentada pelas duas empresas no comunicado é que a demanda superou as expectativas anteriores, vinda de startups, clientes corporativos, laboratórios de IA e órgãos governamentais.
O chip próprio não substituiu a Nvidia
Os chips aceleradores desenvolvidos internamente pela Amazon já operam com uma taxa de receita anualizada de 25 bilhões de dólares, à frente de qualquer outro chip de IA próprio entre as provedoras de nuvem. A dedução mais óbvia seria: quanto mais forte o chip próprio, menor a compra externa. Este pedido derruba justamente essa lógica — as duas frentes estão crescendo ao mesmo tempo.
O motivo está na composição da carteira de clientes. As maiores cargas de trabalho de IA na AWS não vêm todas da própria Amazon — laboratórios externos como Anthropic e OpenAI já somam compromissos de compra com a Nvidia da ordem de 225 bilhões de dólares, e as pilhas de engenharia dessas equipes estão em boa parte presas ao CUDA, o que torna a migração cara e o prazo apertado. O que a provedora de nuvem pode fazer é garantir estoque suficiente de placas. Os chips próprios absorvem a parcela de carga de trabalho cujo escalonamento a própria Amazon consegue definir — as duas frentes não se substituem.
Além do pedido de GPUs
O escopo desta parceria vai além de "comprar placas". Além das GPUs, a AWS vai incorporar a CPU Vera da Nvidia, trazendo para dentro de casa a pilha de IA física voltada para robótica; a série de modelos abertos Nemotron passa a ser oferecida via Amazon Bedrock e SageMaker, e o hardware de rede também será integrado à infraestrutura da AWS. A diretora financeira da Nvidia, Colette Kress, descreveu assim a forma de implantação da Vera: "some integrated with Rubin, others standalone" — ou seja, parte integrada à plataforma Rubin, parte vendida de forma independente.
A linha de CPU Vera merece um olhar à parte. Em maio, Jensen Huang estimou o mercado endereçável potencial em 200 bilhões de dólares, tendo como concorrente a arquitetura x86, que domina os data centers há duas décadas. Conquistar um cliente do porte da AWS equivale ao primeiro grande aval de mercado para essa linha de produtos.
Oferta e demanda alavancando juntas
A receita de data center da Nvidia no último trimestre foi de 89 bilhões de dólares, alta de 117% em relação ao ano anterior; a projeção de receita para o próximo trimestre é de 108 bilhões de dólares. Para dar conta desses pedidos, a própria Nvidia está apostando pesado na cadeia de fornecimento a montante: os compromissos com cadeia de suprimentos e capacidade de fabricação somam cerca de 279 bilhões de dólares, com gastos previstos de 92 bilhões de dólares para o restante do ano fiscal atual e 87 bilhões de dólares para o ano fiscal de 2028.
Depois da divulgação de resultados, Jensen Huang deixou uma frase:
"The thing that matters for the industry is that AI is now doing productive and useful work. AI is generating profitable tokens."
O que importa para o setor é que a IA agora está fazendo um trabalho produtivo e útil. A IA está gerando tokens lucrativos.
A mensagem nas entrelinhas é ancorar a racionalidade do investimento de capital de volta à receita. Fazendo uma conta grosseira: 2 milhões de GPUs, pela faixa de preço pública da geração atual, já representam sozinhas um gasto em hardware na casa das centenas de bilhões de dólares; somando data centers, energia e rede, o valor que a AWS precisará recuperar em aluguel dessa capacidade computacional nos próximos anos também deve chegar às centenas de bilhões (estimativa, já que nenhuma das partes divulgou o valor do contrato). A provedora de nuvem só se arrisca a assinar porque os compromissos de compra do lado dos clientes já estão programados na mesma escala de tempo.
Para os usuários finais, o ritmo de entrega é mais relevante do que o volume total. O acordo anterior, de 1 milhão de chips, foi assinado há cinco meses, e o prazo concreto de entrega segue sem divulgação até hoje; com os 2 milhões adicionais, o número que vai realmente mostrar o valor desta expansão é quando as instâncias de GPU da AWS deixarem de ter fila de espera.
Fontes: TechCrunch, CocoLoop, teleconferência de resultados da Nvidia; a quantidade de GPUs, a receita de data center e os compromissos de investimento foram verificados com base nas divulgações da Nvidia; o valor do contrato não foi revelado por nenhuma das partes.