O Firefox 150 corrigiu 271 vulnerabilidades de segurança em uma única versão.
É um novo recorde para a Mozilla em número de correções em um só lançamento. No mesmo período do ano passado, uma versão do Firefox corrigia cerca de 31 vulnerabilidades. Sair de 31 para 271 não é apenas crescer. É mudar de escala.
O nome por trás dessa diferença é Claude Mythos.
A Mozilla usou o Mythos por meses
Antes de a Anthropic apresentar publicamente o Mythos em abril de 2026, algumas grandes empresas já tinham acesso à versão Preview. AWS, Apple, Google, Microsoft, Mozilla e outras companhias integravam um grupo interno chamado Project Glasswing.
A Mozilla rodou o Mythos Preview durante vários meses. Quando o Firefox 150 chegou, o pacote de correções trouxe números difíceis de ignorar:
- Todas as 271 vulnerabilidades relatadas foram corrigidas.
- 180 foram classificadas pela Mozilla como sec-high, o nível interno mais grave para falhas que podem ser exploradas durante a navegação normal do usuário.
- Três falhas receberam identificadores CVE formais: CVE-2026-6746, CVE-2026-6757 e CVE-2026-6758. Muitas das demais eram achados internos, reforços defensivos ou problemas em caminhos de código considerados não exploráveis.
- A falha mais antiga estava escondida havia 15 anos: um bug de parsing de HTML vindo de código anterior a 2011.
O CTO do Firefox, Bobby Holley, descreveu o resultado de forma reveladora: o ponto encorajador era que a Mozilla não viu nenhuma falha que um pesquisador humano de elite não pudesse encontrar.
Em outras palavras, o Mythos não estava fazendo algo que só uma IA conseguiria fazer. Ele estava fazendo o trabalho que humanos já sabem fazer, mas em uma velocidade muito maior.
A Mozilla expôs o novo gargalo
Brian Grinstead, engenheiro-chefe da Mozilla, disse ao TechCrunch que é difícil exagerar o quanto essa dinâmica mudou para a equipe, porque essas ferramentas de repente ficaram muito boas.
A frase mais importante, porém, foi sobre a correção:
Cada correção ainda envolve um engenheiro escrevendo o patch e outro engenheiro fazendo review. A Mozilla não consegue automatizar essa etapa.
Esse é o ponto central. O Mythos encontra os buracos. Fechá-los ainda é trabalho humano. Para os engenheiros da Mozilla, o efeito imediato não é ter menos bugs, e sim ter uma fila muito maior de bugs a corrigir.
Os números confirmam a mudança. O Firefox corrigiu 423 bugs em abril de 2026, contra 31 no mesmo mês do ano anterior.
A leitura é simples: a IA tornou a tarefa de encontrar bugs uma ordem de magnitude mais rápida, enquanto corrigi-los ainda depende de pessoas. O gargalo saiu da varredura e foi para a remediação.
Por que a Anthropic não abriu o Mythos
O Mythos ainda está restrito ao Project Glasswing. Apenas um pequeno grupo de parceiros confiáveis pode usar a versão Preview. A justificativa da Anthropic é direta: nas mãos erradas, a ferramenta poderia revelar 0-days profundamente escondidos.
Nos testes da Palo Alto Networks, uma rodada de pentest com o Mythos equivaleu a um ano de trabalho humano e levou menos de três semanas.
É por isso que a Anthropic não tem pressa em torná-lo público. Em pesquisa de vulnerabilidades, velocidade define quem chega primeiro. Se um sistema do nível do Mythos chegar aos atacantes antes que os defensores consigam corrigir, o número de falhas exploráveis pode crescer mais rápido do que o lado defensivo consegue fechar.
O número 271 do Firefox já prova que caçadores de vulnerabilidades por IA nesse nível são uma mudança técnica irreversível. A pergunta restante não é se isso vai importar, mas quem poderá usar primeiro.
Do ponto de vista da Anthropic, amadurecer o sistema com uma dezena de parceiros confiáveis é muito mais seguro do que liberá-lo diretamente. Do ponto de vista do ecossistema open source, porém, projetos como OpenBSD, Apache e o kernel Linux não estão na lista do Project Glasswing.
A segunda metade dessa disputa promete ser interessante.
Fontes: CocoLoop, How Anthropic's Mythos has rewritten Firefox's approach to cybersecurity (TechCrunch), Claude Mythos Finds 271 Firefox Vulnerabilities (SecurityWeek), Behind the Scenes Hardening Firefox with Claude Mythos Preview (Mozilla Hacks)