Legaltech brasileira Enter chega a avaliação de US$ 1,2 bilhão

US$ 1,2 bilhão.

Essa é a nova avaliação da Enter, empresa brasileira de IA jurídica, depois de uma rodada de US$ 100 milhões liderada pela Founders Fund, com participação da Sequoia e da Ribbit.

O número, sozinho, não é a parte mais chamativa. O ritmo é: há sete meses a Enter valia US$ 350 milhões; agora vale US$ 1,2 bilhão, quase quatro vezes mais.

O ponto mais interessante é o que a empresa faz: IA para companhias que precisam responder a processos em massa.

Um mercado muito brasileiro

Por que o Brasil?

O país tem hoje cerca de 80 milhões de processos em andamento. Nos Estados Unidos, o volume está na casa das dezenas de milhões; o Brasil tem cerca de oito vezes mais. Isso não acontece porque brasileiros gostem mais de litigar. A estrutura do sistema jurídico torna barato para consumidores processarem empresas e reduz o risco de perder, o que deixa bancos, teles e varejistas expostos a centenas ou milhares de ações de pequeno valor todos os dias.

O método tradicional é pesado: grandes empresas mantêm centenas de advogados respondendo a essas ações como se fosse uma linha de produção.

A proposta da Enter é: deixar a IA redigir a resposta.

A plataforma lê cada petição, extrai os pontos centrais do caso, cruza essas informações com contratos internos, decisões anteriores e dados de produto da empresa, e então produz uma contestação que pode ser revisada por um advogado e enviada ao tribunal.

Poderia soar como uma ferramenta leve de "GPT escrevendo documento jurídico". Mas a lista de clientes da Enter sugere algo bem mais robusto:

  • Itaú, Santander, Nubank e BMG: grandes bancos brasileiros
  • Mercado Livre: o gigante de comércio eletrônico da América Latina
  • Airbnb e Vivo: empresas multinacionais e regionais de grande escala

A Enter espera processar mais de 250 mil ações em 2026. Isso significa quase 700 defesas por dia, volume que escritórios de advocacia não conseguem absorver sem automação.

Um fundador fora da curva

O currículo de Mateus Costa-Ribeiro chama atenção:

  • Virou o advogado mais jovem em exercício no Brasil aos 18 anos
  • Passou no exame da Ordem de Nova York aos 20 anos
  • Formou-se na Harvard Law School
  • Recebeu bolsa integral para o MBA de Stanford, mas recusou a vaga para voltar ao Brasil e empreender

A Enter foi fundada em 2024. Esse tipo de história de fundador é comum no Vale do Silício. Na América Latina, é raro.

Mais raro ainda é o mercado escolhido. Founders Fund e Sequoia apostarem juntas em uma "IA jurídica sul-americana" indica que os principais VCs dos EUA acreditam que os fossos competitivos de IA em mercados emergentes serão diferentes dos do Vale do Silício.

Uma lógica diferente de Harvey e Legora

O setor de IA jurídica já tem nomes conhecidos. A Harvey teria chegado a uma avaliação de US$ 11 bilhões no começo do ano, e a Legora triplicou sua avaliação em cinco meses.

Mas Harvey e Legora vendem IA para escritórios de advocacia: fluxos de trabalho de Magic Circle e Big Law, tíquetes altos, ciclos de decisão longos e atividade próxima de consultoria.

A Enter vende ferramentas de contencioso de massa para departamentos jurídicos corporativos e seguradoras judiciais. O tíquete pode não ser tão alto, mas o volume é grande, a necessidade é clara e cada processo tratado pode virar uma unidade faturável.

Além disso, o mercado jurídico brasileiro não se encaixa bem no modelo Big Law. Ele precisa de capacidade para processar dezenas de milhares, até centenas de milhares de ações em escala. Harvey não leva esse mercado simplesmente porque o formato do produto é outro.

O sinal real está na velocidade da avaliação

Sete meses, de US$ 350 milhões para US$ 1,2 bilhão, quase quatro vezes mais.

Em 2024, essa velocidade pareceria absurda. Em 2026, parece mais próxima do novo normal. Os ciclos de avaliação em IA foram comprimidos para seis a nove meses: a Sierra foi de zero a US$ 15,8 bilhões em dois anos, a Cursor foi de zero a US$ 50 bilhões em três anos, e a Cognition multiplicou sua avaliação por seis em 13 meses.

A Enter é mais um ponto nessa lista. A diferença é que ela não faz parte da narrativa típica do Vale do Silício. Uma empresa de IA jurídica de São Paulo receber aportes sucessivos de Founders Fund e Sequoia mostra que VCs de primeira linha estão dispostos a pagar prêmio por negócios de IA regionais, profundamente verticais e com alta barreira de entrada.

Onde virá a próxima história parecida? IA de compliance na Índia? IA para análise de seguros de saúde no Japão? Ainda não se sabe. Mas a Enter provou uma coisa: os negócios de IA mais lucrativos talvez não estejam na Califórnia, e sim em países sobrecarregados por litígios, conformidade e burocracia.

Fontes: Brazilian AI Legal Startup Enter Valued at $1.2 Billion in Round (Bloomberg); CocoLoop, Brazilian Legal AI Startup Enter Hits $1.2 Billion Valuation (Briefs); Enter Just Tripled Its Valuation to $1.2 Billion (Startup Fortune)