Unidade iemenita teria usado Claude para escrever código de guiagem de mísseis

Em 10 de setembro, a Anthropic publicou um relatório de inteligência de ameaças que classifica os casos de uso indevido do Claude identificados entre dezembro de 2025 e agosto de 2026 em sete categorias: operações cibernéticas, operações de influência, vigilância, desenvolvimento de armas convencionais, uso indevido biológico, fraude e golpes, e destilação ilícita.

A categoria de armas convencionais soma 6 casos, distribuídos, segundo a atribuição geográfica do relatório, em 3 na China, 2 na Rússia e 1 no Iêmen. O caso descrito com mais detalhes é o do Iêmen.

Uma unidade, três projetos

O relatório descreve uma unidade de desenvolvimento de armas no norte do Iêmen que avançava simultaneamente em três projetos: um foguete guiado, um míssil balístico multiestágio com alcance superior a 2.000 km e uma série de variantes planadoras hipersônicas.

O uso do Claude Code se deu no software de guiagem, navegação e controle, geralmente chamado de GNC. Especificamente, o relatório lista quatro tarefas: escrever código de controle e estimativa de posição, ajustar parâmetros, construir firmware, executar simulações de voo. Nas palavras da Anthropic, os envolvidos usaram o Claude Code para lidar com parte do trabalho que normalmente exigiria engenheiros de software.

Houve dois métodos para contornar os mecanismos de segurança. Um foi ocultar o uso militar do software, apresentando as solicitações como problemas genéricos de algoritmos de controle; o outro foi dividir todo o trabalho em sessões independentes entre si, de modo que cada sessão via apenas um componente, sem revelar o plano completo.

O que os expôs foi uma falha. Segundo o relatório, um teste de lançamento do foguete guiado não teve sucesso, e o operador voltou a perguntar ao Claude o motivo da falha — essa pergunta acionou um alerta de segurança.

Segundo a Anthropic, os mecanismos de segurança bloquearam muitas dessas solicitações, mas não todas; as contas envolvidas foram banidas permanentemente.

Um ponto precisa ficar claro: o relatório não identifica a qual facção a unidade pertence. "Norte do Iêmen" é a descrição geográfica fornecida pelo relatório; a associação aos Houthis vem de inferências da mídia, não confirmadas pela Anthropic. O relatório também deixa claro que não há evidências de que esses projetos tenham produzido armas utilizáveis.

A categoria de vigilância tem escala maior

Entre as sete categorias, a que mais impressiona pelos números é a vigilância. O relatório menciona uma plataforma chamada Lakana 360, no Mali, que cobre cerca de 25 milhões de cartões SIM e está conectada a três operadoras móveis nacionais. Essa escala já ultrapassa o uso indevido por indivíduos isolados e se enquadra como infraestrutura sistemática.

Na categoria de destilação ilícita, os protagonistas são vários laboratórios chineses; na linha ligada à Alibaba, o número é de 151 milhões de interações em três meses, e o relatório descreve essa categoria como "operação clandestina em escala industrial". Essa parte já havia sido noticiada separadamente antes.

O relatório também esclarece um ponto sobre os modelos: os casos de uso indevido envolveram majoritariamente versões mais antigas, como Claude Opus 4 e Sonnet 4.5. Segundo o relatório, as barreiras biológicas dos modelos antigos "servem principalmente para impedir que iniciantes acessem conteúdo já conhecido sobre armas biológicas", enquanto a nova geração de modelos, no nível Fable e Mythos, recebeu restrições mais rígidas, inclusive reduzindo consultas amplas relacionadas a pesquisa biológica de duplo uso.

Dois documentos divulgados no mesmo dia

Em 10 de setembro, a Anthropic não divulgou apenas esse relatório. No mesmo dia, saiu também uma avaliação de capacidades feita pela equipe de frontier red team e pela equipe de inteligência de ameaças, testando até onde os modelos conseguem chegar em tarefas militares e de inteligência, incluindo geolocalização de fotos, associação de contas, guiagem terminal de drones e navegação autônoma quando o GPS é interferido. A conclusão dessa avaliação é que, em algumas tarefas, os modelos já conseguem fazer o que antes só um pequeno grupo de especialistas treinados conseguia.

Colocando os dois documentos lado a lado, a ordem cronológica é invertida. A avaliação de capacidades responde "é possível fazer", enquanto o relatório de inteligência de ameaças responde "alguém já está fazendo". A janela temporal coberta por este último começa em dezembro de 2025, mais de meio ano antes dos testes da avaliação de capacidades.

Observando o ritmo de divulgações públicas da Anthropic ao longo do último ano, essa linha vem se intensificando: dos primeiros avisos esporádicos de banimento de contas, passando pela divulgação de incidentes pontuais como o do sistema de água do México, até esse balanço anual organizado por categoria e atribuição geográfica. Quanto a essa densidade de divulgação se tornar prática comum no setor, por ora nenhuma outra empresa tem material público comparável.

Fontes: relatório de inteligência de ameaças da Anthropic, CocoLoop, United Daily News, unwire.hk; verificados o momento de divulgação do relatório, a distribuição do número de casos e a apresentação das três linhas de produto do projeto no Iêmen.